24 de dez. de 2014

Singularidades do Viver #004

"Os anos passam, e o coração vai sangrando, figurativamente, apesar de sentires a dor literal.
Uma pontada, e sabes que te estás a esvair em sangue, desejas, não quero mais sentir, e a dor vai-se desvanecendo, com os minutos, horas, dias, semanas, meses até se tornarem em anos e mais anos.
Tens o peito dormente, e por muito que tentem tocar na ferida, fazer-te sangrar novamente, não sentes.
A ferida sarou, mas dás por ti a divagar na solidão, com o coração em crosta, até que fica nua a cicatriz exibindo a sabedoria presente."

8 de dez. de 2014

Singularidades do Viver #003

"Coisa curiosa, o charme, que diz sempre mais que a pessoa em si.
De certa forma é raro aquele que tem charme com uma tal saturação que nos faz ignorar o resto, mas é tão inexplicável, quase como abrir uma garrafa de vinho velho, pela qual esperávamos tal momento vai tempo."

4 de dez. de 2014

Singularidades do Viver #002

"O formigar que fervilha debaixo da derme, a onda térmica que sobe pelas veias rumo á máquina bombeadora que é o coração, tal qual dois amantes que se reencontram ao luar.
Volta."

3 de dez. de 2014

Singularidades do Viver #001












"Uma relação é um pouco como um reflexo, por vezes, é como se alguém se estivesse apenas a ver ao espelho, um espelho velho e manchado, talvez até quebrado.
O reflexo está lá, mas a imagem não é nítida e difere da realidade."

26 de jun. de 2014

Evolução da Inocência


  1. Ele sentou-se ao pé de mim nas aulas, desenhávamos juntos, eu animais e ele jogadores de futebol, no recreio capturávamos caracóis e Marias cafés, tinha piada ele ter medo e eu não. Imaginávamos uma vida onde éramos amigos para sempre.
  2. Sentei-me no lugar dele, discutimos por isso, o meu orgulho afastou-o, oh, mas como ele era lindo.
  3. Era de tarde e o ambiente era de praia, o meu afecto por ele era tão claro quanto o sol, no entanto ele estava escondido na sombra de um eucalipto.
  4. Estava frio e as borboletas voavam no meu estômago, o telefone apitou e as asas delas cairam, ele estava numa relação, com um rapaz.
  5. Ele ajudou-me na minha paixão e eu apaixonei-me por ele.
  6. Sentia-me sempre segura nos seus braços, quando a campainha tocou, deu-me um beijo e seguimos por caminhos diferentes mas para o mesmo destino, amei-o, nunca mais fomos os mesmos.
  7. Estava chateada, a festa pedia álcool e eu fiz-lhe a vontade, ele apareceu com uma amiga, puxei-o a meio da nossa conversa para evitar que outro alguém fosse contra ele, ele viu nisso um convite e beijou-me no meio da multidão.
  8. A noite já era menina quando me sentei a fazer-lhe companhia no seu cigarro á beira mar, raios, porque não?
  9. As docas estavam desertas, empurrei-o contra a parede de um café fechado, beijei-o, não senti uma única coisa.

16 de mai. de 2014

Quote #31

"Podes pensar que não vais aguentar mais, mas a verdade é que quando pensas que não tens força é quando és mais forte."
Concelhos que se dão ás amigas.

23 de fev. de 2014

Sonhadores

A rua estava deserta, era tarde e estava frio, ninguém ousava sair de casa, olhava pela janela apesar de tudo, escondida na penumbra, observava a calmaria da noite, a luz ténue e amarelada dos candeeiros urbanos, não havia lua mas o céu estava razoavelmente limpo. Ouvi um chiar, provavelmente proveniente de algum carro que vagueava pelas ruas vazias, ocupado por alguém louco o suficiente para estar acordado àquelas horas, alguém louco, como eu que observava aquela rua cheia de nada. Pensei nele, a criatura que mais me tinha cativado, os traços dele tinham-se enevoado de certa forma na minha mente, parecia-me mais arrogante apesar de outrora os ter achado afáveis, uma criatura, igualmente cheia de nada.
A vida teimava em dar as suas voltas, sem permissão, tal qual carrossel rodopiando sem destino sonhando alcançar alguma distância.
Talvez fosse essa a metáfora perfeita para os corações perdidos que se retinham em modo voyeur protegidos dentro de quatro paredes, aqueles que observam sem ser observados, sonhadores.

14 de fev. de 2014

Os nossos dias eram assim vividos, esporadicamente, a única coisa certa no final do dia para além das nuvens impressionistas carregadas de cor impulsionadas pelo crepúsculo era o cigarro que se ia auto-consumindo com o vento numa praia qualquer a que tínhamos ido parar. O rumo das nossas vidas, incerto, não poderia ter outro sabor para além do sabor da felicidade, éramos livros e sabiamo-lo.

Num universo paralelo.

21 de dez. de 2013

Viagem intemporal

Sonhei com um amor antigo, aquele que mais me tocou no coração, foi esquisito, mas foi um sonho feliz.
Vi-o a passar por mim e estava para o ignorar, para ceder á parte de mim que queria ser uma grande cabra vingativa, mas não o fiz, baixei o meu orgulho apesar de ter na consciência que ia parecer uma grande parva e caminhei até ele, como quem não quer a coisa e cumprimentei-o, fingindo surpresa, como se não o tivesse visto logo, estava a espera de um sorriso torto e uns olhos de quem me queria estrangular naquele preciso momento, mas não... Ele sorriu-me, feliz, deu-me dois beijinhos e deu-me um abraço apertado, como já não sentia desde o tempo em que éramos um "nós", basicamente voltei atrás no tempo, voltámos a ser amigos e a brincar um com o outro, como antes de as coisas terem acontecido.
Acho que isto se deve á minha curiosidade, ao meu arrependimento, sei lá, podíamos ter sido felizes, mas em vez disso ele optou em ser feliz sem mim, e hoje, acho que apesar de tudo ele fez a escolha certa, de certa forma, porque ele está a ter sucesso, e eu... Eu sou apenas uma artista em crescimento, cujas obras não serão reconhecidas, mas tenho saudades, saudades da pessoa que era com ele e dos planos impossíveis que fazíamos, éramos inocentes e isso nunca vai voltar.

30 de nov. de 2013

Vermelho Fogoso - Um excerto sem sentido

Parámos os dois á beira do precipício, ele sentou-se com os pés a balançar no ar, virou-se para trás com um meio sorriso e ofereceu-me a mão, aceitei-a e sentei-me ao lado dele. Não falámos, as palavras naquele momento seriam falsas. Perdi-me no horizonte, um pouco entre o rio e um ninho de arbustos vermelhos do outono, estava frio, suspirei e apertei-lhe a mão com ambas as minhas, numa tentativa falhada de as aquecer. O vento soprava ambos os nossos cabelos e entrava pelas nossas roupas, tentando chegar-nos ao tutano dos ossos, "Vamos embora." disse-lhe, mas ele não respondeu, apenas permaneceu com os olhos no horizonte, perdidos entre o rio e um ninho de arbustos fogosos de vermelho do outono, se não fosse pela pele de galinha diria que ele não estava a sentir o frio.