30 de nov. de 2013

Vermelho Fogoso - Um excerto sem sentido

Parámos os dois á beira do precipício, ele sentou-se com os pés a balançar no ar, virou-se para trás com um meio sorriso e ofereceu-me a mão, aceitei-a e sentei-me ao lado dele. Não falámos, as palavras naquele momento seriam falsas. Perdi-me no horizonte, um pouco entre o rio e um ninho de arbustos vermelhos do outono, estava frio, suspirei e apertei-lhe a mão com ambas as minhas, numa tentativa falhada de as aquecer. O vento soprava ambos os nossos cabelos e entrava pelas nossas roupas, tentando chegar-nos ao tutano dos ossos, "Vamos embora." disse-lhe, mas ele não respondeu, apenas permaneceu com os olhos no horizonte, perdidos entre o rio e um ninho de arbustos fogosos de vermelho do outono, se não fosse pela pele de galinha diria que ele não estava a sentir o frio.

2 de set. de 2013

Let's not sink

A noite apresentou-nos á distância e obrigou-nos a interagir de repente, fez faisca, mas o fogo não chegou a ser ateado, a noite tinha pressa e foi-se embora com ele, cedo demais.
Meses passaram como corre a água de um riacho, ribeira que canta entre o cascalho no fundo, dançando na corrente, a noite veio e voltou, mas dele nunca houve sinal. Ela roubou-o com a mesma rapidez com que o ofereceu.
Ou pensava eu, ele foi afastado sim, mas conseguiu que houvesse a possibilidade de partilharmos mais noites e até dias, esses que nunca tinham sido chamados ou acordados, não sei para onde a linha do rio que outrora era riacho ou ribeiro me leva, mas também não é assunto que me atormente, vou deixar o riacho cantar e levar-me ao sabor do vento e da corrente, se não me afogar, quem sabe se vou parar a um lugar bonito?

15 de ago. de 2013

Certas loucuras

Sentia a boca como se fosse uma peúga velha, seca e cheia de mentiras.
Com coisas que disse e com coisas que nunca disse, frases de roçar a perfeição que soavam a falso.
Ele era o que ela desejava sim, quase, mas outrora. No entanto a realidade era que o tempo dele tinha passado.
Frases ditas na altura certa passaram a frases erradas, numa falsa altura certa, suspiradas pela pessoa menos certa ou completamente errada.
Deixava saudades é certo, embora por outro lado as recordações não a fizessem arrepiar só por serem boas, também a irritavam, lembrar-se como se tornava estúpida quando apaixonada.
Não era louco aquele que disse que o amor era fraqueza para o ser.

Da Nostalgia

Nunca pensei depois destes dois anos encontrar uma música composta por ti e continuar a arrepiar-me com a tua voz.

27 de jul. de 2013

Memória Fotográfica

Tenho vários pensamentos que me atormentam, um em especial que me tem atormentado mais, é o facto de não pegar na minha máquina fotográfica desde inícios de Junho, isto acontece porque estou de férias, o que é totalmente bom porque finalmente há aquele descanso merecido, mas preocupa-me um pouco, a fotografia é uma parte essencial da minha vida, capta memórias, imortaliza coisas bonitas ou menos bonitas, conta a minha história, e a máquina tem estado ali no canto, dentro de uma mala que tem vindo a cultivar pó e provavelmente bichos menos agradáveis.
Pedidos não me faltam "Temos de ir passear e tirar umas fotografias" dizem-me com um sorriso na cara, eu sorrio de volta e concordo, é uma coisa que gosto de fazer, obviamente, mas ultimamente não sei porquê tenho acabado por a abandonar, talvez seja da quantidade inocente de eventos repentinos em que levar a máquina seria incómodo ou proibido, uma data de razões e desculpas completamente racionais para a segurança do meu objecto favorito.
Mas hoje olhei para ela ali no canto, e ela olhou para mim, o pó por cima da mala fulminou-me com olhos poeirentos "Olha o que fizeste, estúpida, abandonaste-nos." e eu peguei-a com cuidado e observei todos os seus pormenores, agora estou aqui, estamos juntas outra vez.

1 de jul. de 2013

Lado neutro








Sou um lado semelhante a todos os outros lados de um íman, sou um lado neutro pelo qual nenhum outro se atrai. Muitos tentam mas uma força exterior repele-os, não sei porquê, mas tento pensar que a culpa não é minha, é a ordem das coisas, opostos atraem-se e os iguais repelem-se, mas porque é que todos teimam em ser iguais?

17 de jun. de 2013





 Outrora as suas palavras eram como simples flores silvestres que balançam ao vento, belas, poéticas e doces. No entanto, hoje era uma pessoa diferente, e desta vez, cada vez que falava era como uma explosão de ódio e desespero, ao invés das palavras escorregarem pelo pescoço num arrepio floral, roçavam-no como uma corda roça o pescoço de um condenado ou como uma faca fria beijaria uma garganta nua, seria uma morte mais limpa.

2 de jun. de 2013

Quote #30

 "-Mulher? - Dany soltou um risinho. -Isso pretende insultar-me? Devolveria a provocação se te julgasse um homem. (...)"
 A Glória dos Traidores, George R. R. Martin

11 de mai. de 2013

Futuro

Foi numa noite fria daquelas primaveris com cheiro a verão escondido.
Andava eu a trabalhar e cruzei-me com ele, alto, de camisa azul, feições simples mas atraente e olhos de avelã, trocámos meras palavras e ele quis ajudar-me no trabalho recusei educadamente "Se nos encontrarmos novamente é destino" disse-me com um sorriso sedutor, apesar de lhe retribuir o sorriso, ignorei a promessa e continuei a trabalhar, ele desapareceu, não foi preciso nem uma hora para nos cruzarmos novamente num outro sitio entre a multidão presente, "Deve ser destino" disse-me ele com a sua voz grave, sorri-lhe e continuei, até que me perguntou o nome e por consequência lhe perguntei o dele, éramos possuidores de nomes de personagens de um romance antigo, daqueles com drama e sangue no fim.
Falávamos ao ouvido um do outro, por causa da música que tocava alta, pessoas dançavam à nossa volta, mas ele não parecia querer saber de mais nada, os vestígios de barba que ele possuía na cara arranhavam-me de forma agradável, perdi-me um pouco naquela conversa, entre provocações e afirmações sarcásticas. 
Quando decidi fazer uma pausa e dançar um pouco senti alguém acariciar-me o cabelo, olhei para traz e lá estava ele, de meio sorriso na cara a olhar para mim, desafiador. 
Conversámos ao ouvido um do outro durante algum tempo, ele tinha um cheiro forte a perfume que só dava vontade de continuar a respirar fundo para o sentir, quando dei por nós estávamos abraçados, no meio do frenesim louco de pessoas extasiadas pela música, acabámos a noite assim, num abraço apertado entre beijos ocasionais no pescoço um do outro, quando a música acabou e as pessoas começaram a ir embora, descobrimos que vivíamos a milhas um do outro, e que muito provavelmente uma relação não sobreviveria, por isso despedimo-nos com outro abraço, mais apertado que os iniciais, quase que lhe pedi para não me largar mais, mas não o fiz, foi quando caminhámos em sentidos opostos que a frase "Se nos encontrarmos novamente é destino" ressoou na minha mente.

6 de abr. de 2013

Madame

Junho, o calor começava a ser mais frequente no dia a dia, finalmente o frio primaveril começava a evaporar-se e ela podia sentar-se no alpendre na cadeira de baloiço que chegava a congelar no inverno.
Era pacifico, e a brisa, que começava a ser quente beijava-lhe o pescoço nu, tinha um envelope entre os dedos, acariciou o papel e descolou a tira que o selava. Era de Martim, já não o via haviam três ou quatro voltas de lua, pensava que nunca mais o veria, pela forma como as coisas tinham sido deixadas. 
Tinha sido uma amizade com uma interrupção algo brusca e inexplicável, mas talvez isso não tivesse significado o fim para eles.
Puxou o papel que estava dentro do envelope, era mais uma espécie de cartão do que um papel na verdade, tinha as pontas a imitar pergaminho e havia laivos dourados aqui e ali, um pouco á antiga, muito ao estilo de Martim.
Leu-o devagar, consumindo as palavras como se quisesse ler aquilo para sempre, eram escritas á máquina
e notava-se que tinham sido impressos vários cartões pelo mesmo modelo, as letras convidavam-na para assistir a um musical. Provavelmente não seria nada de especial, como nunca era na realidade, mas atrás do cartão, onde não havia sinal de ter sido produzido por máquinas, havia um "Aparece, por favor" e a rubrica de Martim sussurrada por baixo.
Era Martim, e apesar de não o ver há muito não podia deixar de comparecer, não o queria desiludir apesar de todo o sucedido, a carta tinha vindo atrasada, o musical tinha data para o dia a seguir, pôs o papel de lado e desfrutou do resto da tarde no alpendre a ser acariciada pela brisa.
No dia seguinte, já o sol se começava a extinguir quando se começou a arranjar para ir ver o seu amigo actuar, vestiu algo simples mas sofisticado, afinal era um musical, haveria lá algures mulheres de alta classe nos seus vestidos pomposos, e sabia que Martim estava a subir na sua carreira performativa e cada vez mais pessoas o procuravam para se entreterem ao ouvi-lo cantar e vê-lo executar as coreografias dramáticas tão típicas dos musicais. Vestiu um vestido vermelho de verão, leve e confortável e pintou os lábios a condizer, pesou se faria ou não uma trança, mas decidiu levar o cabelo solto numa cascata acobreada.
Pegou no convite, lançando-o para dentro da mala, entrou no carro e ligou a ignição fazendo o carro ronronar por baixo dela, conduziu devagar para poder perder-se em devaneios com mais segurança, quando deu por si já estava quase no teatro onde seria o espectáculo, estacionou e saiu a cambalear um pouco por estar a ficar atrasada, á entrada, quando disse o seu nome ao moço da lista de convidados, este fez um ar de reconhecimento e fez o seu colega guiá-la até ao seu lugar, Que bem, agora até têm lugares marcados para os convidados, o Martim anda mesmo a ficar alguém importante, pensou Diana. O rapaz guiou-a até uma das cabines suspensas que tinham porta para a privacidade e tudo.
-Espero que aprecie o espectáculo, Madame. - disse o rapaz com cortesia.
Mas ela estava sozinha, não precisaria daquilo, tentou dizer ao rapaz, mas então ele já tinha desaparecido atrás dela.
Acomodou-se no lugar que lhe tinha sido concedido e esperou o inicio do espectáculo.
Martim era dos personagens principais, o musical falava de uma historia de romance entre dois jovens que no final morriam literalmente de amores um pelo outro, mas, ao contrário de Romeu e Julieta, estes morriam assassinados por um fora da lei. A história não era das melhores, mas a produção estava boa, muito melhor do que a ultima que se lembrava de ver com Martim a actuar. Quando acabou houve uma enorme salva de palmas, até rosas atiraram ao palco e aclamavam o nome dos personagens, por essa altura Diana levantou-se e virou costas ao palco, saindo pela porta da cabine e dirigindo-se para fora do teatro, queria muito falar com Martim, abraçá-lo e felicitá-lo pelo sucesso, mas a ideia aterrorizava-a, por isso apressou o passo até chegar ao seu carro, estava a pôr a chave na ranhura quando ouviu o seu nome ser chamado do outro lado da estrada.
Era Martim, ainda com a roupa da peça, uma camisa branca e larga enfiada dentro de calças pretas, os seus pés estavam descalços, tal teria sido a pressa com que teria deixado o teatro à sua procura. Diana congelou, ficou imóvel a olhá-lo, meio em pânico, meio em êxtase. Ele atravessou a estrada a correr, com os seus caracóis castanhos a saltitar com os seus passos até chegar a ela, parou imóvel à sua frente e por momentos fitou-a triste, lembrando-se de todas as coisas terríveis que tinham dito um ao outro.
-Vieste. - Disse por fim, e um enorme sorriso rasgou-lhe os lábios ao mesmo tempo que se precipitava num grande abraço.
Ela envolveu-o também e sentiu os olhos quentes e húmidos de lágrimas.
-Claro que vim, és o meu melhor amigo.