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5 de dez. de 2011

I'll never be good enough

Reúne todos os materiais, desde aparos a pincéis, do mais arcaico ao mais moderno, não quero saber, reúne-os e desenha, desenha o que te vai na alma.
Mastiga uma pastilha até não ter mais sabor, deita-a no caixote e mastiga outra, são as tuas únicas pausas, apesar de não as deveres fazer, quanto mais mastigas mais nervosa ficas, isso é mau para as tuas mãos, não tremas.
Não penses em como o achas charmoso, não sonhes com os beijos que jamais aconteceram, não desejes que ele te deseje outra vez, não sonhes acordada e concentra-te, concentra-te porque se pensares nele vais perder o fio a meada, vais acabar por achar a parede mais estável para os teus pensamentos auto-destructivos.
E os olhos meio azuis, meio esverdeados, meio castanhos da outra criatura bonita? Os desse quanto muito podes desenha-los, mas não penses que eles te vão olhar com a vivacidade de quem ama, porque não vão, vão apenas olhar-te com ar sedutor do papel onde os imortalizaste.
Tens de deixar de sentir necessidade de ter várias opções, tens de aceitar quando perdes a única opção que tens, não podes correr atrás do vento, ele envolve-te quando lhe apetece. E com isso, a única coisa que te resta fazer é pegar numa folha branca e numa ferramenta de desenho, provavelmente a mais simples, e começar a desenhar algo novo, mas começa antes pela paisagem, é o melhor, nem sempre tens de ter um protagonista, porque um desenho estragado raramente pode ser reparado.

28 de ago. de 2011

Esporádicamente.

Foi assim, começou tudo quando a noite ainda era jovem, a rapariga do casaco verde viu o rapaz dos olhos avelã a trabalhar. Ela demorou o olhar nele depois de ter reparado que ele demorava o olhar nela.
Não deixou de se sentir desconfiada, seria a sua percepção a pregar-lhe partidas? Não seria a primeira vez.
Mas não se importou, apesar do rubor e da urgência de desviar os olhos, ela prolongou o olhar nele.
Foi então que ele lhe sorriu, e por impulso ela sorriu-lhe também, foi um daqueles momentos que se vê nos filmes, pronto.
Depois seguiu-se uma grande confusão e sabe-se lá como, o numero dele foi parar ao telemóvel dela.
Eles trocaram algumas mensagens, e depois... Aconteceu o esperado, aquilo que ela tinha previsto.
Mas e vocês, que estavam a espera?

Porque alguém Invisível não faz conclusões nem na vida real.

25 de ago. de 2011

Foi sempre assim que o vi, pacifico e com um ar intelectual, uma pessoa de coisas místicas e estudos do além.
O mundo dele é aquela varanda, que faça chuva faça sol, está sempre abafada e agradável, que tem sempre um ambiente acolhedor e exótico, com todas aquelas plantas, que vão de orquídeas a fetos.
As plantas são a vida dele, lembro-me de arrancar flores do chão,e de ele me dizer sempre com a sua calma característica, "Se a arrancares do caule ela morre." E era verdade, é sempre verdade tudo o que ele me diz, depois de ter arrancado do solo o pequeno malmequer, foi apenas uma questão de horas até o pobrezinho murchar.
Os anos foram passando, com muitas conversas e ensinamentos, e até brincadeiras com as bonecas, que inventávamos no sofá de rede.
Lembro-me de uma vez ter comido pétalas de rosa, por ele ter dito na brincadeira que eram boas para comer. Arrependi-me a seguir, quando senti o sabor a terra na boca.
Lembro-me também quando uma vez encontrei um texto dele na antiga escrivaninha que lá tinha no canto da varanda, na altura ainda não percebia muito daquelas coisas, mal sabia ler, e admito que a letra era belíssima, mas totalmente ilegível pelas suas curvas e contracurvas exageradas. Mas tudo se tornou mais claro quando ele o leu em voz alta. Era um texto sobre um rapaz que queria ser locutor de rádio quando era pequeno, que viu os anos passar e se encontrou novamente com a família, já velho, depois de uma longa viagem. Já não me lembro do resto, que sei que havia mais, mas lembro-me que fiquei a pensar nisso durante muito tempo, em como acabaria a historia, nunca cheguei a descobrir.
Mas é por tudo isto que o admiro, pelo homem que foi, pelo homem que é e por tudo o que já teve que passar. E que mesmo assim, continue com todos os seus passatempos.