Havia tempos em que andava a ansiar o calor, farta do frio, mas este agora veio demasiado intenso e agora já não lhe acho tanta piada, onde estás vento refrescante? Onde estás frio que torna uma chávena de chá de morango a melhor coisa a face da terra?
É, sou uma pessoa que não gosta de temperaturas em excesso. Gosto daquele tempo de céu limpo, com uma certa brisa, e um certo friozinho na espinha. Ou até mesmo aquele tempo nublado mas abafado, agradável.
Sou uma pessoa de fins de tarde semi-frios ou semi-quentes, se isso fizer sentido.
Gosto de ouvir o murmúrio que o vento causa entre os galhos das árvores, quando os bichos verdes estão a hibernar e não nos vêem chatear.
É isso, anda lá outono, agora que te queremos e que te escondes de nós?
Foi preciso ter roubado um coração alheio para descobrir que quem me tinha roubado o meu, não o merecia e tão pouco o queria.
E assim, o dono do coração alheio roubou pela calada o coração que o outro não queria nem merecia, e guardou-o num local melhor, pode ser cedo para se afirmar, mas está muito mais aconchegado agora,
É que, estas coisas são irónicas, e é mesmo quando não se espera, quando se tem um ponto de vista totalmente diferente.
E mentir, não, mentir não, ocultar as coisas, as pessoas podem ocultar, e ficas tipo, mas eu tinha a certeza, mas não sabes que elas estão a ocultar algo.
E depois, quando dás por ti deixas de ter aquele ponto de vista que tinhas antes, reparas que os abraços já não encaixam como antes, aquilo que te sabia bem torna-se esquisito. E lembras-te do encaixe perfeito daquilo que não esperavas, aquilo que seria esquisito agora sabe-te bem.
Era já de tardinha e o horizonte estava cor de laranja, esbatido pelo nevoeiro que se revelava fresco.
Lídia, escondida colocou o manto preto de cetim, que tinha comprado no mercado, esgueirou-se pelas escadas da torre e saiu pela porta das traseiras, colocou o capuz, não fosse o pai reconhece-la e impedi-la.
No meio do crepúsculo ela foi pelo prado de passos leves e silenciosos como a morte, chegando aos estábulos, surripiou uma sela, uma cabeçada e umas rédeas, carregou-as para uma cerca proxima onde haviam cavalos livres, assobiou uma combinação melódica e uma égua árabe revirou as orelhas e trotou até ela.
-Vamos correr, Gaia? - Perguntou Lídia à elegante égua loira, que tinha o nome da deusa da Terra.
Gaia respondeu-lhe positivamente levantando as orelhas e soprando pelas ventas.
Lídia afagou-lhe o focinho e colocou-lhe gentilmente a sela, a cabeçada e as rédeas que tinha roubado do celeiro, silenciosamente retirou-a de dentro das cercas e partiram as duas para uma corrida semi-nocturna.
26 de set. de 2011
-Foste tu que me tocaste?
-Não, achas?
-Parecias tu.
-Porque fui eu. Mas porque é que parecia eu?
-Não sei, é o teu modo de tocares nas pessoas.
-Eu acho que tenho uma maneira rude de tocar nas pessoas.
-Nada disso, não te sei explicar, é a tua maneira.
Ando a redescobrir o prazer em desenhar, desta vez não tanto pelo lazer da coisa, mas por pressão, por precisão, para impressionar o monstro do Desenho.
Não me importo de desenhar para ela, até gosto, desde que ela não esteja presente na sala onde estou a desenhar.
O monstro do desenho intimida, intimida porque gosta de se exibir, porque sabe que é bom no que faz, e nós, discípulos sabemos que só depois de muito tempo a tentar é que vamos conseguir fazer um pouco do que ela faz.
E se ela não gostar do que estamos a fazer, é esquecer, rasgar ou apagar e novamente recomeçar.
A linha torta tem de ficar direita, a folha preenchida e as proporções perfeitas, uma pega de chávena torta e estás morta.
Condenada a pintar Vieux Chaine em papel Craft com uma trincha de pintar paredes.