25 de jun. de 2011

Cheira a mar



Quando saí de casa, olhei a estrada ao longe e vi uma poça de água, que na realidade sabia que não estava lá.
As ruas estão desertas e nem um carro passa, e esta avenida que costuma ser tão movimentada.
Os pés ardem-me nas havaianas e sinto as calças coladas ás pernas, não consigo ter o cabelo solto, trinta graus dizias tu?
A musica não tem o mesmo sabor debaixo daquele sol sem brisa, dava para fazer ovos estrelados no asfalto, aposto.
Está tudo demasiado calmo, ainda só passou um par de carros e um senhor com uma camisola suspeita.
O chão está peganhento, malditas árvores resinosas que cospem a tal substância peganhenta para cima da calçada.
Havia um carro, vermelho, horrível, estacionado há sombra. Já o tinha visto em dias anteriores, com o seu dono de feições asquerosas e rudes, com óculos de fundo de garrafa sentado no seu interior acompanhado pela namorada, uma rapariga que também não inspira nada de bom.
Ao passar pelo carrinho que mais parece uma caixinha de fósforos, todo mal tratado, reparei que eles tinham deixado lá dentro um maço de tabaco e duas toalhas de praia. Quanto ao maço de tabaco nem lhe liguei, eles que engulam a cinza que quiserem, mas as toalhas...
As toalhas fizeram-me viajar, e de repente houve uma brisa, um cheiro a mar, a sal, crianças a fazer castelos de areia e uma enorme... uma enorme massa azul esverdeada, com uma largura que a vista não alcança.
Acho mesmo que tive diversas miragens naquele espaço de dez minutos.

23 de jun. de 2011

Decisões

Quando queres muito alguma coisa ela acaba sempre por te escorregar entre os dedos.
É algo como deixar cair o sabonete na prisão e depois tentar apanhá-lo.
Primeiro lutas para que ele não te escorregue das mãos, quando ele escorrega há aquele efeito câmera lenta antes de ele embater no chão, depois há uns olhares constrangedores, inquisidores até, e quando tomas a decisão de fazer alguma coisa, há sempre alguém por trás que fode a situação.
Isto claro da perspectiva prisional de um homem, porque na vida real aplica-se a todos os sexos, praticamente com os mesmos pormenores, mas noutro contexto.

A essência



Sabes o que gosto nos tigres?
Gosto de como são animais ferozes, corpulentos, mortíferos.
E ao mesmo tempo são gatinhos de peluche, nove vezes maiores do que os comuns que possuímos em casa.
A sua aparência, amorosa, faz-nos esquecer a sua verdadeira natureza.
São eles peluches de escala aumentada, com dentes de sabre, possuidores de uma agilidade inigualável, força de titã e veios negros sobre algodão laranja e branco.
Enquanto estamos distraídos a admirá-los, eles observam-nos pelo canto do olho, e quando damos por nós estamos prestes a ser a refeição.